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Tipos de trauma: entenda as diferenças entre trauma simples, complexo, de desenvolvimento, de apego e trauma vicário

Quando as pessoas escutam a palavra "trauma", normalmente imaginam um único acontecimento muito grave, como um acidente, uma violência ou uma catástrofe.

Essas situações realmente podem causar um trauma.

Mas essa é apenas uma parte da história.

Hoje sabemos que existem diferentes tipos de trauma e que nem todos surgem da mesma forma. Alguns acontecem depois de um único evento. Outros vão sendo construídos ao longo dos anos, principalmente durante a infância e a adolescência.

Entender essas diferenças é importante porque ajuda a compreender por que duas pessoas podem apresentar sintomas parecidos, mesmo tendo histórias completamente diferentes.


Trauma simples

O trauma simples (que de simples não têm nada)  acontece quando uma pessoa vive um único acontecimento que foi intenso, assustador ou ameaçador.

Pode ser um acidente de carro, um assalto, uma agressão, um desastre natural, uma cirurgia muito difícil ou qualquer situação em que a pessoa tenha sentido que sua segurança estava em risco.

Nem todo evento difícil se transforma em um trauma. Muitas pessoas conseguem elaborar essas experiências naturalmente. Mas, quando isso não acontece, aquela lembrança pode continuar provocando sofrimento por muito tempo.

É comum que a pessoa evite situações parecidas, tenha lembranças invasivas ou sinta o corpo reagir como se o perigo ainda existisse.


Trauma complexo

Diferente do trauma “simples”, o trauma complexo não costuma surgir de um único acontecimento.

Ele acontece quando a pessoa vive experiências difíceis de forma repetida durante meses ou até anos.

Por exemplo, crescer em um ambiente com violência, sofrer abuso contínuo, viver negligência, humilhações frequentes ou relacionamentos abusivos por muito tempo.

Nesse tipo de trauma, não existe apenas uma lembrança difícil.

Existe uma história inteira marcada por experiências que afetaram a forma como a pessoa passou a enxergar a si mesma, os outros e o mundo.

Por isso, além da ansiedade ou do medo, é comum aparecer baixa autoestima, dificuldade para confiar nas pessoas, vergonha intensa, culpa e problemas nos relacionamentos.


Trauma de desenvolvimento

O trauma de desenvolvimento está relacionado às experiências vividas durante a infância, justamente na fase em que o cérebro está aprendendo como o mundo funciona e como construir relações seguras.

Uma criança precisa de proteção, acolhimento e previsibilidade para se desenvolver de forma saudável.

Quando essas necessidades não são atendidas de maneira consistente, podem surgir marcas emocionais importantes.

Nem sempre isso acontece porque houve violência.

Às vezes, o trauma de desenvolvimento está relacionado a uma infância marcada por críticas constantes, excesso de cobrança, ausência emocional dos cuidadores, conflitos familiares frequentes ou falta de segurança.

Essas experiências podem influenciar a forma como a pessoa lida com as emoções, estabelece relacionamentos e enxerga a si mesma na vida adulta.


Trauma de apego

Desde que nascemos, aprendemos a construir vínculos com as pessoas que cuidam de nós.

Quando esses vínculos são seguros, a criança tende a desenvolver confiança para explorar o mundo e pedir ajuda quando precisa.

Mas nem sempre isso acontece.

O trauma de apego surge quando essas relações são marcadas por abandono, rejeição, negligência, imprevisibilidade ou falta de segurança emocional.

Uma criança que nunca sabe se será acolhida pode crescer acreditando que precisa agradar todo mundo para ser aceita.

Outra pode aprender que não pode confiar em ninguém.

Essas aprendizagens costumam aparecer mais tarde nos relacionamentos amorosos, nas amizades e até no ambiente de trabalho.

É comum que pessoas com esse tipo de trauma tenham muito medo de rejeição, dificuldade para estabelecer limites ou necessidade constante de aprovação.


Trauma vicário

O trauma vicário é um pouco diferente dos outros.

Ele acontece quando a pessoa não vive diretamente uma situação traumática, mas é profundamente impactada pelo sofrimento de outra pessoa.

Esse tipo de trauma é mais comum em profissionais que trabalham diariamente com histórias difíceis, como psicólogos, médicos, enfermeiros, bombeiros, policiais e assistentes sociais.

Ao ouvir repetidamente relatos de violência, abuso ou perdas importantes, o cérebro também pode sofrer os efeitos dessa exposição contínua.

Por isso, cuidar da própria saúde mental é uma parte importante do trabalho desses profissionais.

Vale lembrar que o trauma vicário também pode acontecer com familiares e pessoas muito próximas de alguém que passou por uma experiência traumática.


É possível ter mais de um tipo de trauma?

Sim.

Na prática, isso é bastante comum.

Uma pessoa pode ter vivido um trauma de desenvolvimento durante a infância e, anos depois, passar por um acidente grave.

Outra pode ter um trauma de apego e também desenvolver um trauma complexo após viver um relacionamento abusivo durante muitos anos.

As experiências humanas não acontecem em caixinhas separadas.

Por isso, durante a avaliação psicológica, olhamos para toda a história da pessoa e não apenas para um único acontecimento.


Uma dúvida que escuto muito no consultório

"Como saber qual tipo de trauma eu tenho?"

Na maioria das vezes, essa resposta não aparece em um teste da internet.

Ela surge durante o processo de avaliação psicológica, quando conseguimos compreender a história de vida, os sintomas atuais e a forma como determinadas experiências continuam influenciando o presente.

Mais importante do que colocar um nome no trauma é entender como ele afeta a sua vida hoje e qual é a melhor forma de cuidar desse sofrimento.


Para finalizar

Conhecer os diferentes tipos de trauma não significa colocar rótulos na sua história.

Significa entender que nem todo sofrimento nasce da mesma forma e que diferentes experiências podem deixar marcas importantes ao longo da vida.

Independentemente de o trauma ter surgido após um único acontecimento ou ter sido construído ao longo de muitos anos, ele não precisa definir quem você é.

Hoje existem abordagens psicológicas baseadas em evidências, como o EMDR, que podem fazer parte do tratamento quando indicadas após uma avaliação cuidadosa.

O primeiro passo é compreender a sua história. O segundo é lembrar que você não precisa carregá-la sozinho.

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