Quando ouvimos a expressão "relacionamento abusivo", muitas vezes pensamos apenas em agressões físicas.
Mas um relacionamento abusivo pode acontecer de muitas formas.
Em alguns casos, a violência é evidente. Em outros, ela aparece aos poucos, de maneira tão sutil que a própria pessoa demora para perceber o que está vivendo.
Críticas constantes.
Humilhações.
Controle excessivo.
Ciúmes apresentados como prova de amor.
Manipulação.
Afastamento de amigos e familiares.
Desvalorização.
Tudo isso pode acontecer dentro de um relacionamento abusivo.
E, muitas vezes, as marcas permanecem mesmo depois que a relação termina.
Por que é tão difícil sair de um relacionamento abusivo?
Essa é uma pergunta que muitas pessoas fazem.
Quem está de fora costuma pensar:
"Era só terminar."
Mas quem vive essa situação sabe que não é tão simples.
Com o passar do tempo, a pessoa pode começar a acreditar que a culpa é dela.
Pode sentir que nunca será amada por outra pessoa.
Pode ter medo de ficar sozinha.
Ou acreditar que está exagerando.
Esses pensamentos não surgem do nada.
Eles costumam ser construídos aos poucos, durante a relação.
É justamente por isso que romper um relacionamento abusivo pode ser tão difícil.
Quais marcas um relacionamento abusivo pode deixar?
Cada pessoa reage de uma maneira.
Algumas desenvolvem ansiedade.
Outras passam a sentir medo constante.
Há quem perca completamente a confiança em si mesmo.
Também é comum aparecerem baixa autoestima, culpa, vergonha, dificuldade para confiar nas pessoas e medo de iniciar novos relacionamentos.
Em alguns casos, basta uma mensagem não respondida ou uma discussão para que o corpo reaja com uma intensidade muito maior do que a situação atual justificaria.
Isso pode acontecer porque determinadas experiências continuam sendo vividas como se ainda estivessem presentes.
Todo relacionamento abusivo causa um trauma?
Não necessariamente.
Cada pessoa vive as experiências de uma forma diferente.
Mas, quando a relação envolve medo, humilhação, manipulação, violência ou um sofrimento intenso e repetitivo, ela pode deixar marcas importantes.
Principalmente quando essas situações aconteceram durante muito tempo.
Por isso, mais importante do que colocar um nome na experiência é compreender como ela continua influenciando a sua vida hoje.
Como o EMDR pode ajudar?
Quando um relacionamento abusivo deixa marcas emocionais, o cérebro pode continuar reagindo como se o perigo ainda existisse.
Mesmo depois do término, algumas pessoas permanecem em estado de alerta.
Outras sentem muito medo de confiar novamente.
Há quem reviva lembranças repetidamente ou continue acreditando em frases que ouviu durante anos, como "você não é suficiente" ou "ninguém vai amar você".
Nessas situações, o EMDR pode fazer parte do tratamento.
O objetivo não é apagar o que aconteceu.
Também não é fazer a pessoa esquecer a sua história.
O objetivo é ajudar o cérebro a processar essas experiências para que elas deixem de provocar o mesmo sofrimento de antes.
É importante lembrar que isso acontece apenas após uma avaliação cuidadosa.
Cada pessoa tem uma história diferente e o tratamento sempre precisa respeitar esse momento.
Reconstruir a autoestima também faz parte do processo
Depois de um relacionamento abusivo, muitas pessoas passam a duvidar de si mesmas.
Perdem a confiança nas próprias escolhas.
Sentem medo de errar novamente.
Questionam a própria percepção da realidade.
Na terapia, além de compreender as experiências vividas, também trabalhamos a reconstrução da autoestima, da segurança e da confiança para que a pessoa possa construir relações mais saudáveis no futuro.
Esse processo acontece gradualmente e respeita o tempo de cada paciente.
Uma dúvida que escuto muito no consultório
"Já terminei esse relacionamento há anos. Por que ele ainda me afeta?"
Porque terminar a relação não significa que todas as marcas emocionais desapareceram.
Às vezes, o relacionamento acaba, mas o medo, a culpa, a insegurança e a desconfiança continuam presentes.
Isso não significa que exista algo de errado com você.
Pode significar apenas que algumas experiências ainda não foram completamente elaboradas pelo cérebro.
Para finalizar
Sobreviver a um relacionamento abusivo exige muita coragem.
E pedir ajuda também.
Se você percebe que essa experiência ainda interfere na sua autoestima, nos seus relacionamentos ou na forma como enxerga a si mesmo, saiba que isso não precisa ser enfrentado sozinho.
Hoje existem abordagens psicológicas baseadas em evidências, como o EMDR, que podem fazer parte do tratamento quando essas experiências continuam provocando sofrimento.
Mais importante do que esquecer o passado é conseguir olhar para ele sem que ele continue controlando o seu presente.
