"Uma pessoa com TEA nível 1 ou altas habilidades pode fazer EMDR?"
A resposta é: sim, em muitos casos pode. Mas existe um ponto muito importante.
O EMDR não é indicado porque a pessoa tem TEA ou altas habilidades.
Ele pode ser indicado quando existe um sofrimento psicológico que faz sentido ser trabalhado, como um trauma, uma experiência difícil, uma fobia, ansiedade relacionada a determinadas situações ou outras dificuldades identificadas durante a avaliação clínica.
Ou seja, o foco do tratamento não é o diagnóstico. O foco é o sofrimento da pessoa.
Ter TEA ou altas habilidades não significa, automaticamente, precisar de EMDR.
É importante fazer essa diferença.
O TEA nível 1 e as altas habilidades não são traumas.
São formas diferentes de funcionamento e desenvolvimento.
No entanto, muitas pessoas com esses perfis acabam vivendo experiências difíceis ao longo da vida.
Bullying.
Exclusão social.
Sensação de não pertencer.
Incompreensão.
Críticas constantes.
Rejeição.
Sobrecarga emocional.
Essas experiências podem deixar marcas importantes e, em alguns casos, contribuir para o desenvolvimento de ansiedade, baixa autoestima, fobias ou experiências traumáticas.
É nessas situações que uma avaliação psicológica pode indicar se o EMDR faz sentido.
Por que algumas pessoas com TEA nível 1 podem viver mais situações traumáticas?
Cada pessoa é única, mas sabemos que muitas enfrentam desafios desde cedo.
Algumas relatam dificuldade para compreender regras sociais que parecem naturais para os outros.
Outras convivem durante anos com críticas por comportamentos que fazem parte do seu funcionamento.
Também é comum que passem por experiências de bullying, isolamento ou sensação de inadequação.
Quando essas experiências se repetem ao longo da vida, elas podem provocar sofrimento emocional importante.
Isso não acontece com todas as pessoas, mas merece atenção.
E nas altas habilidades?
Existe uma ideia de que pessoas com altas habilidades "não sofrem" porque aprendem rápido ou apresentam grande facilidade em determinadas áreas.
Mas essa ideia está longe da realidade.
Muitas convivem com perfeccionismo intenso, sensação de inadequação, dificuldades de relacionamento, cobranças excessivas ou experiências de exclusão.
Algumas aprenderam, desde muito cedo, que precisavam esconder quem eram para serem aceitas.
Outras cresceram ouvindo que eram "complicadas", "sensíveis demais" ou "diferentes".
Essas experiências também podem deixar marcas emocionais importantes.
Mais uma vez, não é a alta habilidade que precisa ser tratada.
É o sofrimento que pode ter surgido ao longo da história de vida.
O EMDR precisa ser adaptado?
Em muitos casos, sim.
Cada pessoa chega à terapia com características, necessidades e formas de processar informações diferentes.
Por isso, o tratamento nunca deve seguir um roteiro rígido.
O psicólogo pode adaptar o ritmo das sessões, a forma de comunicação, a preparação antes do processamento e outras etapas do protocolo para que o paciente se sinta seguro durante todo o processo.
Respeitar essas diferenças faz parte de um atendimento ético e individualizado.
O tratamento começa pelo trauma?
Nem sempre.
Uma das ideias mais importantes no EMDR é que nem todo paciente está pronto para trabalhar experiências difíceis logo no início.
Em muitos casos, principalmente quando existe uma história de sofrimento prolongado, a primeira etapa é fortalecer recursos emocionais, construir segurança e desenvolver estratégias para lidar com as emoções.
Só depois disso é que determinadas lembranças poderão ser trabalhadas, se fizer sentido para aquele caso.
Cada processo tem o seu tempo.
Uma dúvida que escuto muito no consultório
"Ter TEA nível 1 ou altas habilidades significa que a terapia será mais difícil?"
Não.
Significa apenas que o tratamento precisa respeitar a forma como cada pessoa percebe o mundo, organiza as informações e vivencia as emoções.
Assim como acontece com qualquer paciente, não existe um protocolo que funcione exatamente da mesma maneira para todos.
A individualização faz parte da boa prática clínica.
Para finalizar
Pessoas com TEA nível 1 e pessoas com altas habilidades podem viver experiências emocionais tão intensas quanto qualquer outra pessoa.
Quando essas experiências continuam provocando sofrimento, é importante olhar para elas com cuidado e sem preconceitos.
O EMDR pode fazer parte desse processo quando existe uma indicação clínica e uma avaliação cuidadosa.
Mais importante do que o diagnóstico ou a identificação é compreender a história de vida, os desafios enfrentados e aquilo que ainda interfere no presente.
Cada pessoa merece um tratamento construído de forma individualizada, respeitando suas características, seu ritmo e suas necessidades.
