Você já viveu uma situação que parecia ter ficado no passado, mas que ainda mexe com você? Às vezes basta ouvir uma música, encontrar uma pessoa, passar por um lugar ou lembrar de um momento específico para sentir o coração acelerar, um aperto no peito ou aquela sensação ruim de novo. E o mais curioso é que você sabe que aquilo já passou. Então por que ainda dói?
Muitas pessoas chegam dizendo que não entendem por que ainda sofrem com algo que aconteceu há anos. Outras dizem que já tentaram esquecer, seguir em frente, pensar positivo, mas parece que uma parte delas continua presa naquela experiência. Se você já sentiu isso, saiba que não está sozinho. Na maioria das vezes, isso não significa falta de força de vontade nem que você seja fraco. Pode ser apenas que o seu cérebro ainda não tenha conseguido processar completamente aquela experiência.
É justamente aí que o EMDR pode ajudar.
O que é então EMDR?
O EMDR é uma abordagem da psicologia criada para ajudar o cérebro a processar experiências difíceis que continuam causando sofrimento no presente. A sigla vem do inglês Eye Movement Desensitization and Reprocessing, mas, você não precisa decorar esse nome complicado. O mais importante é entender o que essa abordagem faz.
Imagine que o seu cérebro funciona como uma grande biblioteca. Todos os dias você vive experiências novas e, naturalmente, ele organiza essas informações. Depois de um tempo, elas viram lembranças. Você sabe que aconteceram, aprende com elas e segue a vida. Mas algumas experiências são diferentes. Quando vivemos uma situação muito assustadora, muito dolorosa ou emocionalmente intensa, esse processo de organização pode não acontecer da maneira esperada. É como se aquela lembrança ficasse "presa". Por isso, mesmo anos depois, determinadas situações ainda provocam medo, ansiedade, tristeza ou culpa, como se o problema ainda estivesse acontecendo.
O objetivo do EMDR é ajudar o cérebro a concluir esse processamento que ficou interrompido. Isso não significa apagar memórias nem fazer você esquecer a sua história. Pelo contrário. Você continuará lembrando do que aconteceu, mas a tendência é que aquela lembrança deixe de provocar o mesmo sofrimento de antes. Muitos pacientes descrevem isso dizendo: "Eu ainda lembro, mas agora parece apenas uma lembrança. Antes parecia que eu estava vivendo tudo de novo."
Como o EMDR funciona?
Durante as sessões, trabalhamos essas experiências de forma estruturada e segura. Em alguns momentos utilizamos uma estimulação bilateral, que pode acontecer por meio dos movimentos dos olhos, sons alternados ou pequenos toques, dependendo da necessidade de cada pessoa. Mas é importante dizer que o EMDR não é simplesmente movimentar os olhos. Existe toda uma avaliação antes de iniciar o processamento das lembranças. Cada paciente tem uma história diferente e, por isso, o tratamento também é individualizado.
Para quem o EMDR é indicado?
Quando falamos em trauma, muitas pessoas imaginam apenas grandes acontecimentos, como acidentes, assaltos ou violência. Essas situações realmente podem causar traumas, mas nem sempre é assim. Às vezes, o sofrimento está relacionado a experiências que foram acontecendo aos poucos, como crescer ouvindo críticas constantes, sentir que nunca era bom o suficiente, sofrer bullying, viver relacionamentos abusivos ou passar muitos anos tentando agradar todo mundo. Essas experiências também podem deixar marcas importantes e influenciar a forma como a pessoa enxerga a si mesma, os outros e o mundo.
Por isso, o EMDR pode ser indicado para pessoas que convivem com ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), crises de pânico, fobias, luto, baixa autoestima relacionada a experiências do passado, culpa persistente, vergonha intensa e outras situações em que lembranças difíceis continuam interferindo na vida atual. Antes de indicar essa abordagem, porém, é sempre feita uma avaliação cuidadosa para entender se ela é realmente adequada para aquele momento.
O EMDR faz a pessoa esquecer o que aconteceu?
Não. Essa talvez seja uma das dúvidas que mais escuto no consultório.
O EMDR não apaga memórias e não faz você esquecer a sua história. O objetivo é que aquela lembrança deixe de provocar o mesmo sofrimento de antes.
Imagine uma cicatriz. Ela continua ali. Você sabe como ela surgiu, mas ela já não dói como no dia em que o machucado aconteceu. Com o EMDR buscamos algo parecido. A lembrança continua existindo, mas deixa de controlar o seu presente.
Uma última coisa que eu gostaria que você soubesse
Muitas pessoas passam anos acreditando que existe algo de errado com elas porque não conseguem "superar" determinadas situações. Mas, na maioria das vezes, não é falta de força de vontade. Também não significa que você seja fraco. Pode ser apenas que o seu cérebro ainda esteja tentando lidar com uma experiência que foi intensa demais naquele momento.
A boa notícia é que o cérebro tem uma grande capacidade de adaptação e mudança. Quando existe a abordagem adequada, no momento certo e respeitando o ritmo de cada paciente, é possível olhar para essas experiências de uma forma diferente, reduzindo o sofrimento que elas ainda provocam.
Se você se identificou com este texto, saiba que procurar ajuda não significa que você é fraco. Significa apenas que decidiu cuidar da sua saúde emocional da mesma forma que cuidaria da sua saúde física.
