Muitas pessoas chegam dizendo: "Eu não sei se isso foi um trauma ou se eu estou exagerando."
E a minha resposta quase sempre é a mesma: antes de dar um nome para o que aconteceu, eu gosto de entender como essa experiência continua influenciando a vida da pessoa hoje.
Isso porque o trauma nem sempre está relacionado ao tamanho do acontecimento. O mais importante é entender como o seu cérebro conseguiu lidar com aquela situação naquele momento.
Existem pessoas que passaram por grandes perdas e conseguiram elaborar essa experiência ao longo do tempo. Outras carregam marcas profundas de situações que, para quem olha de fora, poderiam parecer pequenas.
Por isso, não compare a sua história com a de outras pessoas.
Cada cérebro reage de uma maneira.
O primeiro sinal é sentir que o passado ainda está muito presente.
Você sabe que determinada situação já aconteceu há anos, mas basta lembrar dela para sentir o corpo reagir.
O coração acelera.
A respiração muda.
Dá um aperto no peito.
Vem uma vontade de fugir daquele assunto.
É como se uma parte de você ainda acreditasse que aquilo estivesse acontecendo.
Outro sinal é evitar determinadas situações.
Muitas vezes a pessoa começa a evitar lugares, conversas, pessoas ou situações que lembram aquela experiência.
À primeira vista, isso parece ajudar, porque evita o sofrimento.
Mas, aos poucos, a vida vai ficando cada vez menor.
Algumas pessoas deixam de dirigir depois de um acidente.
Outras evitam relacionamentos por medo de sofrer novamente.
Há quem deixe de viajar, de falar em público ou até de confiar nas pessoas.
Nem sempre percebemos que essa evitação pode estar relacionada a uma experiência mal elaborada.
Você vive sempre em estado de alerta?
Tem pessoas que sentem como se precisassem estar preparadas para o pior o tempo todo.
Dormem com dificuldade.
Assustam-se facilmente.
Sentem necessidade de controlar tudo.
Ficam sempre imaginando o que pode dar errado.
É como se o cérebro nunca conseguisse desligar completamente o modo de sobrevivência.
Viver assim é extremamente cansativo.
Você se culpa por coisas que aconteceram?
A culpa também pode aparecer depois de experiências difíceis.
"Eu deveria ter feito diferente."
"Se eu tivesse percebido antes..."
"Foi minha culpa."
Mesmo quando, racionalmente, sabemos que não tínhamos controle da situação, às vezes continuamos carregando esse peso durante muitos anos.
Você sente vergonha de quem é?
Nem todo trauma está ligado ao medo.
Algumas pessoas passam a acreditar que existe algo de errado com elas.
Sentem vergonha.
Acham que nunca são boas o suficiente.
Vivem tentando agradar todo mundo.
Têm medo de serem rejeitadas.
Essas crenças podem estar relacionadas a experiências vividas principalmente na infância e na adolescência.
Você reage de forma muito intensa em algumas situações?
Às vezes acontece algo pequeno, mas a reação é enorme.
Uma crítica.
Uma discussão.
Um atraso.
Uma mensagem que não foi respondida.
Você sabe que aquela reação parece exagerada, mas não consegue evitar.
Isso acontece porque, muitas vezes, aquela situação atual desperta lembranças emocionais antigas, mesmo sem que você perceba.
Você tem dificuldade para confiar nas pessoas?
Depois de algumas experiências, principalmente quando houve abandono, rejeição ou traição, é comum que o cérebro tente proteger você de novos sofrimentos.
O problema é que essa proteção pode fazer com que confiar em alguém pareça sempre muito arriscado.
Isso pode afetar amizades, relacionamentos amorosos e até o ambiente de trabalho.
Você sente que está sempre tentando provar o seu valor?
Algumas pessoas vivem em busca de aprovação.
Precisam fazer tudo perfeitamente.
Sentem culpa quando descansam.
Têm dificuldade para dizer "não".
Vivem tentando mostrar que são boas o suficiente.
Nem sempre isso está relacionado apenas à personalidade.
Às vezes, essa necessidade nasceu de experiências antigas em que a pessoa aprendeu que só seria aceita se correspondesse às expectativas dos outros.
Você evita falar sobre o que aconteceu?
Existem pessoas que conseguem contar a própria história com tranquilidade.
Outras mudam de assunto imediatamente.
Sentem um nó na garganta.
Começam a chorar.
Ou dizem:
"Prefiro nem pensar nisso."
Esse também pode ser um sinal de que aquela experiência ainda provoca sofrimento.
Ter um ou mais desses sinais significa que tenho um trauma?
Não necessariamente.
Esses sinais não servem para fazer um diagnóstico.
Eles servem apenas como um convite para olhar para a sua história com mais curiosidade e menos julgamento.
Cada pessoa é única.
Por isso, uma avaliação feita por um psicólogo é a melhor forma de entender o que está acontecendo.
Uma dúvida que escuto muito no consultório
"Mas eu tive uma infância boa. Mesmo assim posso ter um trauma?"
Sim.
Ninguém precisa ter vivido uma grande tragédia para carregar marcas emocionais.
Às vezes, pequenas experiências repetidas ao longo da vida podem deixar consequências importantes.
O sofrimento não deve ser medido pelo olhar de quem está de fora.
Ele deve ser compreendido pela forma como aquela experiência foi vivida por você.
Para finalizar
Se você leu este texto e se identificou com alguns desses sinais, isso não significa que exista algo de errado com você.
Talvez seja apenas um indicativo de que algumas experiências ainda merecem ser cuidadas.
E a boa notícia é que hoje existem abordagens psicológicas baseadas em evidências que ajudam o cérebro a processar essas lembranças de forma mais saudável.
